AULA 30 – Outras poéticas do artifício no século XXI.

Pra encerrar o curso, mostro aqui alguns artistas, que embora não tenham alguma relação entre si, ilustram bem um retorno às estéticas do artifício neste começo de século, no extremo oposto das estéticas realistas que vimos aula passada. Alguns desses artistas, inclusive, foram apresentados por alunos mais curiosos em arte. Nem todos são célebres ou relevantes, mas formam um panorama bem interessante e que pode ser acrescentado por outros nomes também emergentes no cenário mundial.

Empty Dream, 1995 © Photo courtesy of Mariko Mori, AUTVIS, Brasil 2010 gun-shy_1 Holy-Motors SA_Sky-Art_Thomas-Lamadieu_Sickest-Addictions_Sick-Addicts_2012

Temos o brasileiro Vik Muniz, e seus trabalhos feitos com alimentos perecíveis, fotografias de açúcar, trabalhos com sucata; as fotomontagens (paisagens feitas de alimentos) de Carl Warner (que inclusive enfeitam as paredes do RU da Ufes); as infogravuras de Mariko Mori, em que a própria artista é protagonista de várias landscapes futuristas; as ilusões de ótica dos desenhos de Julian Beever (que faz vários trabalhos com giz colorido e bastões de pastel); as sombras imaginadas e distorcidas de Regina Silveira, adesivadas na parede e chão da galeria;  e a “Sky art” de Thomas Lamadieu – desenhos feitos  a partir de fotografias do céu. Completam a série dois vídeos de Beyoncé (o clipe de “Countdown” e a performance no Billboard Music Awards de 2011) e um clipe da banda nova-iorquina Grizzly Bear, da música Gun-shy, de 2012, que se inspira na lógica dos gif animados (que indiretamente nos remete aos aparelhos óticos do século XIX, pré-cinema) para trazer uma visualidade carregada de frescor em termos de vídeo.

A Palma de Ouro concedida em 2012 a  Holy Motors, filme do francês Leos Carax, também ilustra como esse “artificialismo” cinematográfico tão característico dos anos 80 de repente voltou com força total no circuito.

Termino o semestre fazendo uma rápida reflexão de como as artes contemporâneas frequentemente têm dialogado entre esses dois polos que demarcam as quatro últimas aulas do semestre: o realista e o artificialista (até porque muito de metalinguagem é artifício puro, disfarçado de real). Confesso que esta última aula é muito mais uma escolha intuitiva (tanto que nem tem bibliografia) do que algo já consolidado. Uma aposta. Por isso mesmo que o conteúdo dela vai mudando todo semestre. Acaba sendo uma aula-coringa, frequentemente reinventada enquanto espero os anos passarem e ver exatamente onde esse tipo de estética vai dar, no que ela pode se ramificar e se realmente esse tipo de leitura que hoje faço desse conjunto de obras irá vingar

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Aula 29 – Ironia e Consumo: releituras do legado de Duchamp e Warhol nas artes contemporâneas

Texto: Filipe Scovino, “A ironia e suas estratégias na obra de Cildo Meireles”.

O conceito de ready-made proposto por Duchamp foi o marco inicial de uma aproximação entre arte e vida cotidiana, utopicamente concebida (porém não plenamente realizada) pelas vanguardas modernistas do início do século. Já Warhol, dentro do espírito da pop art da década de 60, recolocou essa questão sob o viés da produção em série na sociedade de consumo e da mediação proporcionada pelos meios de comunicação de massa.

Inserções em Circuitos Ideológicos

A partir da década de 70, tais ideias passam a influenciar uma série de propostas artísticas, seja por um viés mais crítico/político, como o adotado por Cildo Meirelles em sua série Inserções em circuitos ideológicos, que soava bastante provocativa/subversiva no contexto totalitário da ditadura militar brasileira.

“Para ser curvada”, de Cildo Meirelles
“Babel”, de Cildo Meirelles

Ou ainda a ironia ácida de Nelson Leirner e suas “procissões”, reunindo miniaturas produzidas em série, como imagens de santos e orixás, bonequinhos baratos de 1,99, dinossauros, personagens de desenhos animados, super-heróis e outros elementos da cultura popular e pop (muitas vezes, neste último caso, tangenciando o kitsch).

“Vestidas de branco” (Nelson Leirner)
“Vestidas de branco”, de Nelson Leirner

Na década de 60, Leirner atualiza a provocação do mictório duchampiano (ocorrida quase 50 anos antes!), ao submeter à comissão de seleção de um salão de arte brasileiro um porco empalhado, o que causou uma gigantesca polêmica sobre se isso seria arte ou não. Na Bienal de São Paulo de 2010, uma curiosa releitura dessa obra se faz na instalação Pacavoa, em que um javali empalhado (originalmente, seria uma paca) “pilota” uma máquina de voar, projetada por Leonardo da Vinci e nunca construída.

O porco empalhado de 1966
O javali empalhado de 2010
O protótipo de Leonardo da Vinci

Uma outra possibilidade é o diálogo direto com o kitsch da cultura de massa/pop, investigando muitas vezes novos sentidos estéticos onde o senso comum julgaria de antemão como território de “mau-gosto”. Neste caso, o trabalho do norte-americano Jeff Koons, principalmente a partir dos anos 80, seria um exemplo bastante instigante e polêmico, seja com suas esculturas gigantes metálicas, o irônico souvenir de porcelana retratando o popstar Michael Jackson e seu macaco de estimação. Vale ainda destacar a inversão que Koons faz do trabalho de Roy Lichtenstein em seu Popeye “ilusionista”: aquilo que, à primeira vista, parece com uma fotografia de uma impressão ampliada de uma imagem de revista em quadrinhos e de um boneco inflável plástico, na verdade é uma pintura com alto grau de detalhismo hiperrealista.

Uma das gigantescas esculturas de Koons, exposta em 2008 nos jardins do Palácio de Versailles, na França
“Michael Jackson and Bubbles”, 1988
Popeye, de Jeff Koons (óleo sobre tela, 2003)

Já o japonês Takashi Murakami, que ganha notoriedade internacional nos últimos 15 anos, assume uma ambígua postura frente à cultura pop, em especial o j-pop. Suas figuras coloridas remetem a art toys, animes, mangás, ao visual da colorida juventude pós-moderna japonesa, adicionando elementos lisérgicos e até mesmo uma dimensão de crueldade em figuras aparentemente “fofas” e “inofensivas”, que ora parecem saídas de um conto de fadas, ora de uma narrativa de horror.

DOB in the strange forest, obra de Takashi Murakami (1998)
“Hiropon”, de Takashi Murakami, 1997

Ao mesmo tempo que se inspira na cultura de consumo massivo, Murakami também produz para ela (em especial no campo do design gráfico), adicionando seu traço peculiar como uma espécie de griffe bastante disputada, seja ao desenhar estampas para a exclusivíssima marca de bolsas Louis Vutton ou assinando capas de cds (Graduation) e direção de videoclipes (Good Morning) para o Rapper Kanye West.

MUrakami é herdeiro de uma tradição de cultura pop bastante forte no Japão, em especial nas artes visuais,com os trabalhos pioneiros de Yayoi Kusama, desde os anos 60, com sua obsessão em repaginar o mundo com as estampas de bolas e outras extravagâncias, desde os anos 60 até hoje, inclusive na excêntrica coleção de estampas que desenvolveu recentemente pra Louis Vuitton.

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Falando de Japão, cabe abrir parênteses pra apresentar um pouco de sua cultura pop: animes (como os filmes do Miyazaki), mangás (o pioneiro Astro Boy, de 1952), e as tribos de adolescentes da região de Harajuku.

O japonês Yoshitomo Nara também se apropria da estética dos animes para retratar suas cruéis figuras infantis.

Numa linha que mistura pop e surrealismo, temos o californiano Mark Ryden, atuando desde os anos 80, e que também fez capas de discos de Michael Jackson (Dangerous) e Red Hot Chili Peppers (One Hot Minute).

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Fechando esse bloco, temos Pedro Almodóvar, que surge no final dos 70 como uma espécie de Warhol espanhol, dentro de um movimento juvenil conhecido como Movida Madrileña, espécie de liberação pós-Franco, misto de pop art, new wave, punk e desbunde com altas doses de ironia. De seu primeiro longa, Pepi Luci e Bom (1980), mostro duas cenas: os créditos de abertura e os comerciais das calcinhas Puton. Outro nome do período é a cantora Alaska, que em 2005 viria a ter um clipe dirigido pelo uruguaio Martin Sastre, com altas doses de ironia e citações a clipes clássicos da cultura pop mundial.

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AULAS 27 e 28 – O retorno do Real nas artes: Hiperrealismo, Melancolia pós-pop, Grunge, Estetizações da violência. Metalinguagem/ metacinema

Leitura sugerida: “A biblioteca de Babel” (Jorge Luiz Borges, conto)

Se a crise do realismo, desencadeada com a chegada da fotografia, é um dos eventos centrais para o nascimento da chamada Arte Moderna, é justamente um retorno ao real, a partir da década de 70, que irá se dar nas artes contemporâneas, atingindo seu auge a partir dos anos 90.

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Nosso percurso começa pelos desenhos, pinturas e esculturas hiperrealistas, que emulam a fotografia e fascinam o público por não parecerem feitos por mãos humanas. O movimento surge nos anos 70, mas passa a ter uma súbita popularidade nos últimos anos, graças às redes sociais, chegando inclusive a pessoas que usualmente não consomem arte contemporânea.  Se no início o discurso por trás do hiperrealismo era de um fascínio pela técnica, nos últimos anos têm emergido artistas que  trabalham de forma irônica, como os autorretratos na banheira de Lee Price (ela se fotografa comendo na banheira, e depois reproduz a cena em pinturashiperrealistas) e as esculturas gigantes e grotescas do Ron Mueck (que irá fazer uma mega-exposição no Brasil em 2014).

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Em seguida, temos a geração britânica dos 90, revelada com a exposição Sensation, realizada na Royal Academy (Londres) em 1997, que trabalha de maneira polêmica a relação do sensacionalismo e da exposição da intimidade.  Artistas: Tracy Emin ( que revela os nomes de todo mundo com quem dormiu desde criança, com as letras recortadas em tecidos de lençóis, afixadas nas paredes de uma barraca); Marcus Harvey (cujo trabalho Myra é um gigantesco painel, ampliando a fotografia P&B de uma serial killer, todo carimbado com mãos de crianças – obra que causou imensa repulsa na época, e foi alvo de vários atentados); e Damien Hirst, o mais valorizado e o mais escandaloso (com seus animais mergulhados em formol, a caríssima caveira forrada de diamantes, denominada “For the love of god” ou ainda a série de telas “I feel love”, cobertas por cola e um perfume que atraía borboletas, e que, colocadas ao ar livre, capturavam os insetos e nos faziam testemunhas de sua própria morte).

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Outra presença do real vem dos discursos da violência na cultura pop dos anos 90: seja a melancolia do grunge (Nirvana, Pearl Jam), a agressividade do Gangsta Rap), a estetização da violência nos filmes do Tarantino e nas fotografias de Larry Clark.

O vídeo Girl Power, realizado pela norte-americana Sadie Benning em 1993, quando tinha somente 19 anos, representa aqui os trabalhos autobiográficos, de tom confessional, que passaram a ser uma constante nos campos da videoarte e dos documentários. Novamente, o real se fazendo presente.

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Por fim, veremos como a metalinguagem voltou com força total nos últimos vinte anos, principalmente num cinema que mistura real e ficcional, sem deixar claro onde começa um e onde termina o outro. Começo a série mostrando uma imagem que mistura essas instâncias todas: o atentado de 11 de setembro. Em seguida, mostro que a metalinguagem não é novidade nas artes – a tela As meninas, do espanhol Velázquez, já problematizava em 1656 (ou seja, ainda no Barroco) o lugar do espectador na cena, a partir de um curioso jogo que nos coloca no exato lugar que as figuras que posam para o retrato executado pelo pintor que aparece no quadro. Aliás, para quem tanto olha a Mona Lisa de Da Vinci?

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A apropriação que Duchamp faz da Mona Lisa também só funciona por ser um discurso metalinguístico com a própria história da arte e com o lugar sagrado que o quadro de Da Vinci ocupa, como a mais famosa obra de arte de todos os tempos.

No século XX, os contos do argentino Jorge Luiz Borges também trabalhavam com a ideia da metalinguagem, em especial as resenhas para livros que nunca foram escritos, ou a própria estória da Biblioteca de Babel.

Por fim, temos os filmes que misturam ficção e documentário do iraniano Abbas Kiarostami (Close Up, 1990) e também Atividade Paranormal 3, exemplo bem interessante de metacinema dentro dos blockbusters norte-americanos.

 

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AULA 26– Multiculturalismo, hibridismo e globalização: o “resto” do mundo somos nós?

Texto: “O cosmopolitismo do pobre” (Silviano Santiago) menlibayeva_2011web_the_phoenix Aqui, a discussão propõe experimentar o olhar não-eurocêntrico para as artes, de modo que possamos discutir o olhar multicultural e repensar o lugar do terceiro mundo. Problematizo a forma como certos trabalhos são reduzidos, no contexto internacional, ao viés do exótico (Beatriz Milhazes, artista brasileira contemporânea mais reconhecida no mercado internacional,que muitas vezes é valorizada pelos estrangeiros pelas cores e formas exuberantes, em lugar de situarem-na numa linhagem de abstração geométrica; ou o cinema de Bollywood, com sua narrativa peculiar). Em seguida,mostro o multiculturalismo como possibilidade de resistência (exemplos:  as fotografias feministas da iraniana Shirin Neshat; o resgate das lendas locais na obra do artista do Casaquistão Almagul Menlibayeva; o radicalismo cinematográfico do tailandês Apichatpong Weerasethakul, que não faz questão de distinguir, em seus filmes, os domínios do real concreto e do mágico/espiritual).  shirin2 Para encerrar, resgatamos a  ideia de “cosmopolitismo do pobre”, do Silviano Santiago, aliada às “culturas híbridas” do Canclini, para pensar  o caráter transcultural e cosmopolita em certas culturas periféricas brasileiras: o resgate da cultura afro na Axé Music dos 80 (Madagascar Olodum, da Banda Reflexus), o funk carioca e seus sampleamentos anárquicos, e o tecnobrega paraense, misturando tradições culturais amazônicas (e ritmos caribenhos) com a tecnologia barata da música eletrônica.

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Aula 25 – Revival, citação e intertextualidade na cultura pop

Numa época em que tudo é citação (e que a própria citação virou uma instância central de comunicação e mediação nas sociedades pós-modernas), qual o lugar da originalidade nas artes contemporâneas? Ou melhor: a originalidade ainda é o “valor maior”, tal qual pregavam os modernistas da primeira metade do século?

Não, não é. E, acreditem, isso é algo bom. A cultura do mash up que o diga! E, de quebra, ainda reinventa-se toda a noção de autoria.

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Responda rápido: quanto de intertextualidade pode haver num sampling musical?

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Que tal um exemplo nacional?

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E um musical pós-moderno, em que canções pop das últimas quatro décadas embalam uma história de amor ambientada no final do século XIX/começo do século XX? Quantos novos significados podem surgir desse “mashup” cultural?

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Texto estudado: “Cultura da reciclagem”, artigo de Marcus Bastos, publicado no livro Cultura em fluxo (org. André Brasil)

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AULAS 23 e 24 – Política e engajamento nas artes. Ativismo urbano.

Textos: “Joseph Beuys tem maior retrospectiva já realizada no Brasil” e “Arte e política: Um passeio pela obra de Ai WeiWei”

Exibição de trecho (meia hora) do documentário sobre Banksy (Exit through the gift shop) e debate. 

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É possível fazer arte política nos dias de hoje?

Algumas imagens para reflexão:

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Yinka Shonibare – “Diary of an victorian dandy” (fotografia, 1998)

M.I.A – BORN FREE VIDEO OFFICIAL (real and explicit version)
Carregado por elnino. – Ver os últimos vídeos de musica em destaque

“Now!”(1965), filme do cubano Santiago Alvarez:


Elisabeth Ohlson – “Ecce Homo – Last Supper” (fotografia ,1998)

Fotos do livro “Tulsa”, lançado por Larry Clark em 1971

 

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AULA 22 – A virada dos 70 para os 80 e a emergência de novas subculturas juvenis: (Punk, Pós-Punk, Hip Hop, Grafite e Neo-Expressionismo).


Um verdadeiro choque cultural sacode o ocidente no final dos anos 70 e início dos 80. Uma série de propostas culturais originárias de uma juventude em total desacordo com o “mundo adulto” (marcado por uma forte recessão econômica e pelos engessados governos de direita como Reagan e Tatcher) traduz esse sentimento de descontentamento e a necessidade de experimentar outros caminhos – o que, no Reino Unido, pode ser exemplificado pela agressividade punk de bandas como The Clash e do Sex Pistols (e pela moda iconoclasta da estilista Vivienne Westwood), pela reflexividade e melancolia intelectual dos pós-punks (Joy Division, The Cure, Siouxsie, Smiths, U2, bem como, no Brasil, os primeiros discos da Legião Urbana) e góticos (Bauhaus), pelas paisagens artificiais e pós-modernas do synth-pop (Human League, New Order, Depeche Mode, Soft Cell e outros tantos herdeiros do Kraftwerk) e dos andróginos e glamourosos new romantics britânicos (Boy George e Duran Duran à frente, ecoando até mesmo no som dos brasileiros RPM).

Do outro lado do Atlântico, borbulha um gigantesco caldeirão de referências que permeia a música pop norte-americana do período (em especial a cena punk/new wave que florescia ao redor do clube CBGB, palco para bandas tão diferentes entre si como Ramones, B-52’s, Blondie, Devo e Talking Heads, sem contar os minimalistas do movimento no wave, os experimentalismos da chamada mutant disco, o flerte com o reggae no som do The Police, com os ritmos caribenhos de Kid Creole, o rockabilly dos Stray Cats, ou ainda o nascimento da house music, em Chicago, e do techno em Detroit, ambos em meados dos 80…).

Era como se o punk, com sua anarquia, seu espírito de faça-você-mesmo (que inclusive originaria dezenas de gravadoras independentes, fanzines e turnês improvisadas rodando o país a bordo de vans durante meses) e sua fúria fossem uma espécie de marco zero – depois do qual haveria diversas páginas em branco, a serem preenchidas pelas dezenas de propostas desses movimentos todos.

Marcada por toda uma mescla de euforia desmedida e irrefreável angústia (afinal várias eram as sombras que pairavam como ameaças a essa juventude, como a Aids, as overdoses, o desemprego em massa, a ameaça da Guerra Fria), essa efervescência toda ganhava espaço, num sentido de urgência, vivido muitas vezes como se não houvesse amanhã (ecos desse zeitgeist encontram-se também na literatura da época – e podemos constatar isso em autores brasileiros como Ana Cristina César, João Gilberto Noll, Caio Fernando Abreu, ou nas letras de música de Cazuza e Renato Russo).

Em Nova Iorque, Nan Goldin foi testemunha desses anos, e uma das figuras centrais do cenário das artes visuais, com suas fotografias e slideshows que retratavam a urgência de sua geração, tentando se equilibrar entre suas utopias e distopias.

E essa juventude tomava nas ruas, dia e noite, da mesma forma que o faria uma nascente e radical cultura originada entre a juventude negra nova-iorquina: o Hip Hop.

Quatro eram os pilares da cultura Hip Hop: o canto falado do Rap (que, com seu esperto jogo de palavras, assumir-se-ia como uma espécie de crônica do cotidiano nas periferias das grandes metrópoles); o DJ (com suas colagens sonoras, criando novos sons e ritmos a partir de discos já existentes, numa radical forma de intertextualidade musical catalisada pelo ato de “samplear”); a dança de rua (Breakdance), que assumia um caráter público e coletivo, ao ser praticada a céu aberto e reunindo rodas de dançarinos, uns desafiando os outros (algo que também acontecia entre os rappers); e o Grafitti, forma radical, irreverente e espontânea de intervenção na paisagem urbana.

No decorrer da década de 80 e 90, o Grafite iria ser assimilado pelo circuito de museus e galerias das artes visuais, tornando vários grafiteiros em celebridades insólitas, como Bansky ou os paulistanos OsGêmeos. Um dos pioneiros  nessa incorporação é o paulistano Alex Vallauri:

É também nas ruas, desta vez na “incansável” Nova Iorque, que jovens artistas vão dialogar diretamente com o desenho, a pintura, a gravura (muitos inclusive oriundos do grafitti), num resgate de modalidades artísticas que estavam totalmente abandonadas na década anterior. Uma figura central nesse momento é Keith Haring, com suas imagens coloridas, vibrantes e irreverentes.

E também engajadas, em causas nobres como a luta contra o preconceito aos portadores do HIV e à homofobia:

Não à toa, Haring era amigo íntimo de uma jovem cantora surgida nesse mesmo contexto das ruas nova-iorquinas e da cultura de street dance: a então desconhecida Madonna, que se lançaria no cenário musical cruzando várias dessas referências num repertório de apelo pop massivo.

Já no século XXI, Madonna prestaria uma nostálgica homenagem a esse contexto cultural, ao utilizar animações de desenhos de Haring em sua turnê, ao som da canção “into the groove”:

Além de Keith, outro jovem pintor que surge no período (e é apadrinhado imediatamente por Warhol) é Jean-Michel Basquiat. Sua pintura vigorosa, por vezes misteriosa e repleta de referências ao expressionismo e às raízes haitianas de seus antepassados dialogava diretamente com a estética nova-iorquina do período, presente na música e no cinema underground:

Aliás, o retorno à pintura, na década de 80, em muito se baseia numa espécie de neo-expressionismo, que inclusive se tornaria bastante popular mundo afora  – a ponto de, na XVIII Bienal de São Paulo, realizada em 1985, ter sido organizada a chamada “A grande Tela”, um corredor longo em que foram espalhadas, lado a lado, em ambas as paredes, dezenas de pinturas neo-expressionistas de artistas de diversas procedências, como se todas fossem parte de uma única e interminável obra).

Esse espírito também se espalharia por boa parte da geração 80 das artes visuais brasileiras, em especial o (gigantesco e sempre crescente) grupo que se reunia para pintar na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Dessa geração, podemos destacar o carioca Jorge Guinle, que alcançou notoriedade em sua carreira extremamente curta (atingindo reconhecimento por volta de 1983, encerrando-se com sua morte, aos 40 anos, em 1987).

Nos confins da cidade muda (tela de Jorge Guinle, 1983)

Outro nome central nas artes brasileiras, surgido na década de 80, e que também capta esse espírito de inconformismo e urgência é o cearense Leonilson. Utilizando-se muitas vezes de técnicas como os bordados e costuras, ele constrói, durante cerca de uma década, uma obra essencialmente autobiográfica (e que faz alguma referência à produção de Arthur Bispo do Rosário), retratando a solidão como se cada obra fosse uma carta para um diário íntimo, no dizer da crítica de arte Lisette Lagnado (e esse diálogo extremamente sensível e delicado se estenderia até sua morte precoce, aos 36 anos, em 1993, também vítima da AIDS, como Guinle, Haring, Arthur Russell, Caio Fernando Abreu, Renato Russo e Cazuza, entre outros brilhantes jovens artistas de sua época). Contudo, é curioso perceber como a obra de Leonilson soa cada vez mais atual, de modo que hoje o artista possui uma reputação internacional muito mais ampla do que a que obteve em vida.

Texto: “Ainda sujos depois de todos esses anos” (reportagem da revista Rolling Stone, n.13, out. 2007) e verbete “Graffiti” (Enciclopédia Itaú Artes Visuais). 

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