AULA 22 – A virada dos 70 para os 80 e a emergência de novas subculturas juvenis: (Punk, Pós-Punk, Hip Hop, Grafite e Neo-Expressionismo).


Um verdadeiro choque cultural sacode o ocidente no final dos anos 70 e início dos 80. Uma série de propostas culturais originárias de uma juventude em total desacordo com o “mundo adulto” (marcado por uma forte recessão econômica e pelos engessados governos de direita como Reagan e Tatcher) traduz esse sentimento de descontentamento e a necessidade de experimentar outros caminhos – o que, no Reino Unido, pode ser exemplificado pela agressividade punk de bandas como The Clash e do Sex Pistols (e pela moda iconoclasta da estilista Vivienne Westwood), pela reflexividade e melancolia intelectual dos pós-punks (Joy Division, The Cure, Siouxsie, Smiths, U2, bem como, no Brasil, os primeiros discos da Legião Urbana) e góticos (Bauhaus), pelas paisagens artificiais e pós-modernas do synth-pop (Human League, New Order, Depeche Mode, Soft Cell e outros tantos herdeiros do Kraftwerk) e dos andróginos e glamourosos new romantics britânicos (Boy George e Duran Duran à frente, ecoando até mesmo no som dos brasileiros RPM).

Do outro lado do Atlântico, borbulha um gigantesco caldeirão de referências que permeia a música pop norte-americana do período (em especial a cena punk/new wave que florescia ao redor do clube CBGB, palco para bandas tão diferentes entre si como Ramones, B-52’s, Blondie, Devo e Talking Heads, sem contar os minimalistas do movimento no wave, os experimentalismos da chamada mutant disco, o flerte com o reggae no som do The Police, com os ritmos caribenhos de Kid Creole, o rockabilly dos Stray Cats, ou ainda o nascimento da house music, em Chicago, e do techno em Detroit, ambos em meados dos 80…).

Era como se o punk, com sua anarquia, seu espírito de faça-você-mesmo (que inclusive originaria dezenas de gravadoras independentes, fanzines e turnês improvisadas rodando o país a bordo de vans durante meses) e sua fúria fossem uma espécie de marco zero – depois do qual haveria diversas páginas em branco, a serem preenchidas pelas dezenas de propostas desses movimentos todos.

Marcada por toda uma mescla de euforia desmedida e irrefreável angústia (afinal várias eram as sombras que pairavam como ameaças a essa juventude, como a Aids, as overdoses, o desemprego em massa, a ameaça da Guerra Fria), essa efervescência toda ganhava espaço, num sentido de urgência, vivido muitas vezes como se não houvesse amanhã (ecos desse zeitgeist encontram-se também na literatura da época – e podemos constatar isso em autores brasileiros como Ana Cristina César, João Gilberto Noll, Caio Fernando Abreu, ou nas letras de música de Cazuza e Renato Russo).

Em Nova Iorque, Nan Goldin foi testemunha desses anos, e uma das figuras centrais do cenário das artes visuais, com suas fotografias e slideshows que retratavam a urgência de sua geração, tentando se equilibrar entre suas utopias e distopias.

E essa juventude tomava nas ruas, dia e noite, da mesma forma que o faria uma nascente e radical cultura originada entre a juventude negra nova-iorquina: o Hip Hop.

Quatro eram os pilares da cultura Hip Hop: o canto falado do Rap (que, com seu esperto jogo de palavras, assumir-se-ia como uma espécie de crônica do cotidiano nas periferias das grandes metrópoles); o DJ (com suas colagens sonoras, criando novos sons e ritmos a partir de discos já existentes, numa radical forma de intertextualidade musical catalisada pelo ato de “samplear”); a dança de rua (Breakdance), que assumia um caráter público e coletivo, ao ser praticada a céu aberto e reunindo rodas de dançarinos, uns desafiando os outros (algo que também acontecia entre os rappers); e o Grafitti, forma radical, irreverente e espontânea de intervenção na paisagem urbana.

No decorrer da década de 80 e 90, o Grafite iria ser assimilado pelo circuito de museus e galerias das artes visuais, tornando vários grafiteiros em celebridades insólitas, como Bansky ou os paulistanos OsGêmeos. Um dos pioneiros  nessa incorporação é o paulistano Alex Vallauri:

É também nas ruas, desta vez na “incansável” Nova Iorque, que jovens artistas vão dialogar diretamente com o desenho, a pintura, a gravura (muitos inclusive oriundos do grafitti), num resgate de modalidades artísticas que estavam totalmente abandonadas na década anterior. Uma figura central nesse momento é Keith Haring, com suas imagens coloridas, vibrantes e irreverentes.

E também engajadas, em causas nobres como a luta contra o preconceito aos portadores do HIV e à homofobia:

Não à toa, Haring era amigo íntimo de uma jovem cantora surgida nesse mesmo contexto das ruas nova-iorquinas e da cultura de street dance: a então desconhecida Madonna, que se lançaria no cenário musical cruzando várias dessas referências num repertório de apelo pop massivo.

Já no século XXI, Madonna prestaria uma nostálgica homenagem a esse contexto cultural, ao utilizar animações de desenhos de Haring em sua turnê, ao som da canção “into the groove”:

Além de Keith, outro jovem pintor que surge no período (e é apadrinhado imediatamente por Warhol) é Jean-Michel Basquiat. Sua pintura vigorosa, por vezes misteriosa e repleta de referências ao expressionismo e às raízes haitianas de seus antepassados dialogava diretamente com a estética nova-iorquina do período, presente na música e no cinema underground:

Aliás, o retorno à pintura, na década de 80, em muito se baseia numa espécie de neo-expressionismo, que inclusive se tornaria bastante popular mundo afora  – a ponto de, na XVIII Bienal de São Paulo, realizada em 1985, ter sido organizada a chamada “A grande Tela”, um corredor longo em que foram espalhadas, lado a lado, em ambas as paredes, dezenas de pinturas neo-expressionistas de artistas de diversas procedências, como se todas fossem parte de uma única e interminável obra).

Esse espírito também se espalharia por boa parte da geração 80 das artes visuais brasileiras, em especial o (gigantesco e sempre crescente) grupo que se reunia para pintar na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Dessa geração, podemos destacar o carioca Jorge Guinle, que alcançou notoriedade em sua carreira extremamente curta (atingindo reconhecimento por volta de 1983, encerrando-se com sua morte, aos 40 anos, em 1987).

Nos confins da cidade muda (tela de Jorge Guinle, 1983)

Outro nome central nas artes brasileiras, surgido na década de 80, e que também capta esse espírito de inconformismo e urgência é o cearense Leonilson. Utilizando-se muitas vezes de técnicas como os bordados e costuras, ele constrói, durante cerca de uma década, uma obra essencialmente autobiográfica (e que faz alguma referência à produção de Arthur Bispo do Rosário), retratando a solidão como se cada obra fosse uma carta para um diário íntimo, no dizer da crítica de arte Lisette Lagnado (e esse diálogo extremamente sensível e delicado se estenderia até sua morte precoce, aos 36 anos, em 1993, também vítima da AIDS, como Guinle, Haring, Arthur Russell, Caio Fernando Abreu, Renato Russo e Cazuza, entre outros brilhantes jovens artistas de sua época). Contudo, é curioso perceber como a obra de Leonilson soa cada vez mais atual, de modo que hoje o artista possui uma reputação internacional muito mais ampla do que a que obteve em vida.

Texto: “Ainda sujos depois de todos esses anos” (reportagem da revista Rolling Stone, n.13, out. 2007) e verbete “Graffiti” (Enciclopédia Itaú Artes Visuais). 

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Sobre erlyvieirajr

Erly Vieira Jr (Vitória, 1977). Escritor, cineasta e pesquisador em audiovisual. Realizou os curta-metragens "Macabéia" (16 mm, 2000, co-dirigido por Virgínia Jorge e Lizandro Nunes), "Pour Elise" (35 mm, 2004), "Saudosa" (35 mm, 2005, co-escrito e co-dirigido por Fabrício Coradello), "Grinalda" (Mini DV, 2006), "Eu que nem sei francês"(Mini DV, 2008), "Avenca" (35 mm, 2009), "Silentio"(HD, 2010), e "O ano em que fizemos contato" (HD, 2010), "A mão tagarela" (HD, 2010) e "Pra casa agora eu vou" (HD, 2012). Seus quatro primeiros curtas estão reunidos no DVD "Algumas estórias" (2008). Publicou "Contraponto, Reta, Plano" (Poemas, 1999), "-sse" (contos, 2008) e Rodapés (crônicas, 2009). Co-organizou a antologia "Instantâneo", publicada pela Secult-ES em 2005, reunindo 38 escritores capixabas contemporâneos. É professor do Departamento de Comunicação Social da Ufes e do Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGA-UFES). É Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e Mestre em Comunicação, Imagem e Informação pela UFF.
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2 respostas para AULA 22 – A virada dos 70 para os 80 e a emergência de novas subculturas juvenis: (Punk, Pós-Punk, Hip Hop, Grafite e Neo-Expressionismo).

  1. nossa professor, me deu até vontade de chorar agora! Eu fiz o post todo sobre Woody Allen falando do filme “Vicky, Cristina e Barcelona” E quando vou ver é pra falar de um filme anterior a 1990!!!

  2. Itamara C. Wa disse:

    Ótima aula! *-* Joy Division, Bowie, Depeche Mode, Madonna, Boy Geoge, Siouxsie, Soft cell e etc.. Enfim, até me emocionei. hahahah abraço.

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