Aula 29 – Ironia e Consumo: releituras do legado de Duchamp e Warhol nas artes contemporâneas

Texto: Filipe Scovino, “A ironia e suas estratégias na obra de Cildo Meireles”.

O conceito de ready-made proposto por Duchamp foi o marco inicial de uma aproximação entre arte e vida cotidiana, utopicamente concebida (porém não plenamente realizada) pelas vanguardas modernistas do início do século. Já Warhol, dentro do espírito da pop art da década de 60, recolocou essa questão sob o viés da produção em série na sociedade de consumo e da mediação proporcionada pelos meios de comunicação de massa.

Inserções em Circuitos Ideológicos

A partir da década de 70, tais ideias passam a influenciar uma série de propostas artísticas, seja por um viés mais crítico/político, como o adotado por Cildo Meirelles em sua série Inserções em circuitos ideológicos, que soava bastante provocativa/subversiva no contexto totalitário da ditadura militar brasileira.

“Para ser curvada”, de Cildo Meirelles
“Babel”, de Cildo Meirelles

Ou ainda a ironia ácida de Nelson Leirner e suas “procissões”, reunindo miniaturas produzidas em série, como imagens de santos e orixás, bonequinhos baratos de 1,99, dinossauros, personagens de desenhos animados, super-heróis e outros elementos da cultura popular e pop (muitas vezes, neste último caso, tangenciando o kitsch).

“Vestidas de branco” (Nelson Leirner)
“Vestidas de branco”, de Nelson Leirner

Na década de 60, Leirner atualiza a provocação do mictório duchampiano (ocorrida quase 50 anos antes!), ao submeter à comissão de seleção de um salão de arte brasileiro um porco empalhado, o que causou uma gigantesca polêmica sobre se isso seria arte ou não. Na Bienal de São Paulo de 2010, uma curiosa releitura dessa obra se faz na instalação Pacavoa, em que um javali empalhado (originalmente, seria uma paca) “pilota” uma máquina de voar, projetada por Leonardo da Vinci e nunca construída.

O porco empalhado de 1966
O javali empalhado de 2010
O protótipo de Leonardo da Vinci

Uma outra possibilidade é o diálogo direto com o kitsch da cultura de massa/pop, investigando muitas vezes novos sentidos estéticos onde o senso comum julgaria de antemão como território de “mau-gosto”. Neste caso, o trabalho do norte-americano Jeff Koons, principalmente a partir dos anos 80, seria um exemplo bastante instigante e polêmico, seja com suas esculturas gigantes metálicas, o irônico souvenir de porcelana retratando o popstar Michael Jackson e seu macaco de estimação. Vale ainda destacar a inversão que Koons faz do trabalho de Roy Lichtenstein em seu Popeye “ilusionista”: aquilo que, à primeira vista, parece com uma fotografia de uma impressão ampliada de uma imagem de revista em quadrinhos e de um boneco inflável plástico, na verdade é uma pintura com alto grau de detalhismo hiperrealista.

Uma das gigantescas esculturas de Koons, exposta em 2008 nos jardins do Palácio de Versailles, na França
“Michael Jackson and Bubbles”, 1988
Popeye, de Jeff Koons (óleo sobre tela, 2003)

Já o japonês Takashi Murakami, que ganha notoriedade internacional nos últimos 15 anos, assume uma ambígua postura frente à cultura pop, em especial o j-pop. Suas figuras coloridas remetem a art toys, animes, mangás, ao visual da colorida juventude pós-moderna japonesa, adicionando elementos lisérgicos e até mesmo uma dimensão de crueldade em figuras aparentemente “fofas” e “inofensivas”, que ora parecem saídas de um conto de fadas, ora de uma narrativa de horror.

DOB in the strange forest, obra de Takashi Murakami (1998)
“Hiropon”, de Takashi Murakami, 1997

Ao mesmo tempo que se inspira na cultura de consumo massivo, Murakami também produz para ela (em especial no campo do design gráfico), adicionando seu traço peculiar como uma espécie de griffe bastante disputada, seja ao desenhar estampas para a exclusivíssima marca de bolsas Louis Vutton ou assinando capas de cds (Graduation) e direção de videoclipes (Good Morning) para o Rapper Kanye West.

MUrakami é herdeiro de uma tradição de cultura pop bastante forte no Japão, em especial nas artes visuais,com os trabalhos pioneiros de Yayoi Kusama, desde os anos 60, com sua obsessão em repaginar o mundo com as estampas de bolas e outras extravagâncias, desde os anos 60 até hoje, inclusive na excêntrica coleção de estampas que desenvolveu recentemente pra Louis Vuitton.

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Falando de Japão, cabe abrir parênteses pra apresentar um pouco de sua cultura pop: animes (como os filmes do Miyazaki), mangás (o pioneiro Astro Boy, de 1952), e as tribos de adolescentes da região de Harajuku.

O japonês Yoshitomo Nara também se apropria da estética dos animes para retratar suas cruéis figuras infantis.

Numa linha que mistura pop e surrealismo, temos o californiano Mark Ryden, atuando desde os anos 80, e que também fez capas de discos de Michael Jackson (Dangerous) e Red Hot Chili Peppers (One Hot Minute).

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Fechando esse bloco, temos Pedro Almodóvar, que surge no final dos 70 como uma espécie de Warhol espanhol, dentro de um movimento juvenil conhecido como Movida Madrileña, espécie de liberação pós-Franco, misto de pop art, new wave, punk e desbunde com altas doses de ironia. De seu primeiro longa, Pepi Luci e Bom (1980), mostro duas cenas: os créditos de abertura e os comerciais das calcinhas Puton. Outro nome do período é a cantora Alaska, que em 2005 viria a ter um clipe dirigido pelo uruguaio Martin Sastre, com altas doses de ironia e citações a clipes clássicos da cultura pop mundial.

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Sobre erlyvieirajr

Erly Vieira Jr (Vitória, 1977). Escritor, cineasta e pesquisador em audiovisual. Realizou os curta-metragens "Macabéia" (16 mm, 2000, co-dirigido por Virgínia Jorge e Lizandro Nunes), "Pour Elise" (35 mm, 2004), "Saudosa" (35 mm, 2005, co-escrito e co-dirigido por Fabrício Coradello), "Grinalda" (Mini DV, 2006), "Eu que nem sei francês"(Mini DV, 2008), "Avenca" (35 mm, 2009), "Silentio"(HD, 2010), e "O ano em que fizemos contato" (HD, 2010), "A mão tagarela" (HD, 2010) e "Pra casa agora eu vou" (HD, 2012). Seus quatro primeiros curtas estão reunidos no DVD "Algumas estórias" (2008). Publicou "Contraponto, Reta, Plano" (Poemas, 1999), "-sse" (contos, 2008) e Rodapés (crônicas, 2009). Co-organizou a antologia "Instantâneo", publicada pela Secult-ES em 2005, reunindo 38 escritores capixabas contemporâneos. É professor do Departamento de Comunicação Social da Ufes e do Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGA-UFES). É Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e Mestre em Comunicação, Imagem e Informação pela UFF.
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