AULAS 27 e 28 – O retorno do Real nas artes: Hiperrealismo, Melancolia pós-pop, Grunge, Estetizações da violência. Metalinguagem/ metacinema

Leitura sugerida: “A biblioteca de Babel” (Jorge Luiz Borges, conto)

Se a crise do realismo, desencadeada com a chegada da fotografia, é um dos eventos centrais para o nascimento da chamada Arte Moderna, é justamente um retorno ao real, a partir da década de 70, que irá se dar nas artes contemporâneas, atingindo seu auge a partir dos anos 90.

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Nosso percurso começa pelos desenhos, pinturas e esculturas hiperrealistas, que emulam a fotografia e fascinam o público por não parecerem feitos por mãos humanas. O movimento surge nos anos 70, mas passa a ter uma súbita popularidade nos últimos anos, graças às redes sociais, chegando inclusive a pessoas que usualmente não consomem arte contemporânea.  Se no início o discurso por trás do hiperrealismo era de um fascínio pela técnica, nos últimos anos têm emergido artistas que  trabalham de forma irônica, como os autorretratos na banheira de Lee Price (ela se fotografa comendo na banheira, e depois reproduz a cena em pinturashiperrealistas) e as esculturas gigantes e grotescas do Ron Mueck (que irá fazer uma mega-exposição no Brasil em 2014).

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Em seguida, temos a geração britânica dos 90, revelada com a exposição Sensation, realizada na Royal Academy (Londres) em 1997, que trabalha de maneira polêmica a relação do sensacionalismo e da exposição da intimidade.  Artistas: Tracy Emin ( que revela os nomes de todo mundo com quem dormiu desde criança, com as letras recortadas em tecidos de lençóis, afixadas nas paredes de uma barraca); Marcus Harvey (cujo trabalho Myra é um gigantesco painel, ampliando a fotografia P&B de uma serial killer, todo carimbado com mãos de crianças – obra que causou imensa repulsa na época, e foi alvo de vários atentados); e Damien Hirst, o mais valorizado e o mais escandaloso (com seus animais mergulhados em formol, a caríssima caveira forrada de diamantes, denominada “For the love of god” ou ainda a série de telas “I feel love”, cobertas por cola e um perfume que atraía borboletas, e que, colocadas ao ar livre, capturavam os insetos e nos faziam testemunhas de sua própria morte).

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Outra presença do real vem dos discursos da violência na cultura pop dos anos 90: seja a melancolia do grunge (Nirvana, Pearl Jam), a agressividade do Gangsta Rap), a estetização da violência nos filmes do Tarantino e nas fotografias de Larry Clark.

O vídeo Girl Power, realizado pela norte-americana Sadie Benning em 1993, quando tinha somente 19 anos, representa aqui os trabalhos autobiográficos, de tom confessional, que passaram a ser uma constante nos campos da videoarte e dos documentários. Novamente, o real se fazendo presente.

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Por fim, veremos como a metalinguagem voltou com força total nos últimos vinte anos, principalmente num cinema que mistura real e ficcional, sem deixar claro onde começa um e onde termina o outro. Começo a série mostrando uma imagem que mistura essas instâncias todas: o atentado de 11 de setembro. Em seguida, mostro que a metalinguagem não é novidade nas artes – a tela As meninas, do espanhol Velázquez, já problematizava em 1656 (ou seja, ainda no Barroco) o lugar do espectador na cena, a partir de um curioso jogo que nos coloca no exato lugar que as figuras que posam para o retrato executado pelo pintor que aparece no quadro. Aliás, para quem tanto olha a Mona Lisa de Da Vinci?

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A apropriação que Duchamp faz da Mona Lisa também só funciona por ser um discurso metalinguístico com a própria história da arte e com o lugar sagrado que o quadro de Da Vinci ocupa, como a mais famosa obra de arte de todos os tempos.

No século XX, os contos do argentino Jorge Luiz Borges também trabalhavam com a ideia da metalinguagem, em especial as resenhas para livros que nunca foram escritos, ou a própria estória da Biblioteca de Babel.

Por fim, temos os filmes que misturam ficção e documentário do iraniano Abbas Kiarostami (Close Up, 1990) e também Atividade Paranormal 3, exemplo bem interessante de metacinema dentro dos blockbusters norte-americanos.

 

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Sobre erlyvieirajr

Erly Vieira Jr (Vitória, 1977). Escritor, cineasta e pesquisador em audiovisual. Realizou os curta-metragens "Macabéia" (16 mm, 2000, co-dirigido por Virgínia Jorge e Lizandro Nunes), "Pour Elise" (35 mm, 2004), "Saudosa" (35 mm, 2005, co-escrito e co-dirigido por Fabrício Coradello), "Grinalda" (Mini DV, 2006), "Eu que nem sei francês"(Mini DV, 2008), "Avenca" (35 mm, 2009), "Silentio"(HD, 2010), e "O ano em que fizemos contato" (HD, 2010), "A mão tagarela" (HD, 2010) e "Pra casa agora eu vou" (HD, 2012). Seus quatro primeiros curtas estão reunidos no DVD "Algumas estórias" (2008). Publicou "Contraponto, Reta, Plano" (Poemas, 1999), "-sse" (contos, 2008) e Rodapés (crônicas, 2009). Co-organizou a antologia "Instantâneo", publicada pela Secult-ES em 2005, reunindo 38 escritores capixabas contemporâneos. É professor do Departamento de Comunicação Social da Ufes e do Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGA-UFES). É Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e Mestre em Comunicação, Imagem e Informação pela UFF.
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